Historiografia da Natureza Humana

HISTORIOGRAFIA DA NATUREZA HUMANA:

“HISTÓRIA E CULTURA: Apologias a Tucídides”  de Marshall Sahlins.

Por José Ricardo Martins.

Introdução

O autor Marshall Sahlins, ao confrontar, comparar e fazer a história “dialogar” com a narrativa de duas guerras em épocas distintas – a Guerra do Peloponeso e a Guerra da Polinésia –  traz uma grande contribuição à humanidade. Sahlins mostra que “não há história sem cultura e vice-versa”, sendo que a cultura sobressai, como fica evidente em sua narrativa. Ele ousa evidenciar que o conceito antropológico de cultura é importante para o estudo da história.

            Sahlins questiona o autor da Guerra do Peloponeso, Tucídides, ao não incluir a cultura para fazer sua análise histórica.

           Na descrição da Guerra da Polinésia, mais precisamente nas Ilhas Fiji, ocorrida no século XIX, entre os reinos de Bau e Rewa, há uma semelhança entre esses dois reinos e Esparta e Atenas. Bau era uma potência marítima como Atenas, e Rewa uma potência militar como Esparta. A partir desse laço, Sahlins “mostra a relevância da etnografia para a compreender os fatos históricos”.

           Em sua análises, Sahlins reflete sobre a grande questão: a ação histórica é individual ou coletiva? Indivíduos como Péricles ou Alcibíades ou a coletividade – os espartanos versus os atenienses? Afinal, quem faz a história? O autor nos diz que quando a mudança ou os fatos históricos acontecem de forma gradual e lenta, é o coletivo o sujeito da história. Já quando a ação ou fato histórico é abrupto ou as mudanças são bruscas, é o indivíduo quem faz a história.

           Finalmente, a resenhista nos traz a questão de cultura e contingência, dizendo que “a cultura dá inteligibilidade à contingência”,  ou seja, a cultura dá condições de entendimento ao acaso e casual.

Arché Hegemonia Sem Soberania

            Atenas e Bau desenvolveram um império diferente dos Impérios europeus do tempo moderno, porque suas hegemonias eram diferentes. Os Impérios europeus modernos impunham seu próprio estado sobre seus territórios conquistados, Já os Impérios de Bau e Atenas não haviam sido criado baseado na conquista de territórios, além disso, eles exerciam a chamada Hegemonia sem Soberania que era uma espécie de coerção pelo domínio e pelo medo que foi imposto pela demonstração do poderio militar desses Impérios através das batalhas de Atenas contra os Persas e de Bau contra Verata.

            Como o domínio ateniense assim como o bauense, era diferente de todos, não tinha uma palavra para definir essa hegemonia. Então o general Tucídides quando ia se referir à dominação ateniense chamava de Arché, que é uma palavra substantiva do verbo “comandar”.

            Mesmo sendo baseado mais na coerção através do medo, e na demonstração da força que atenienses e bauenses tinham, isso não significava que a força deles eram apenas simbólicas, a maior parte da violência era sim simbólica, mas se alguma cidade se opusesse a entrar no Arché, ateniense, a violência era sim empregada contra os rebeldes. Da mesma forma que Ratu Cakobau poderia dar o pior fim canibal a um chefe que o desafiasse. Um exemplo de civilização que não quis se render ao grande poder do Arché, foi os Melos que recebeu a ordem dos atenienses a se renderem para não serem mortos.Não cumprindo essa ordem, os atenienses mataram todos os homens melianos e suas mulheres e crianças foram vendidas como escravos.

            Apesar de toda essa tirania, Atenas tinha vários admiradores devido ao respeito imposto sua magnífica arquitetura, sua força nos jogos olímpicos e a fama de seus filósofos e políticos. Isso se deu devido a política de Atenas que visava atrair o mundo para ela. Já Baú fazia parecido,  mesmo eles não tendo grandes obras arquitetônicas, Bau se diferenciava das outras ilhas de Fiji por sua cultura diferenciada, isso era rituais de canto e dança e exibição de comida e riqueza, o que causava grande excitação geral.

            Essa espécie de paixão de outros povos pela cultura bauense e ateniense dava mais força para o Arché, que é a hegemonia sem soberania. Isso pode ser visto nos dias de hoje, no caso dos Estados Unidos que por meio de sua cultura, exerce uma espécie de Arché nos dias de hoje influenciando a maioria dos povos da sociedade contemporânea

A Historiografia da Natureza Humana

            A grande contribuição de Sahlins em sua obra “HISTÓRIA E CULTURA: Apologias a Tucídides”  foi o de mostrar a importância da cultura para o estudo da história, bem como a importância da história para o estudo da cultura. Fato este que é uma ousadia e um avanço nos estudos antropológicos, como o próprio autor afirma no prefácio.

           A obra de Tucídides, objeto das reflexões de Sahlins neste sub-item, combina reflexões políticas, éticas com a História. Tucídides via a História como sendo algo mais que uma lista de eventos que se desenrolam e, acima de tudo, buscou a “verdade” nos fatos que narrou. Por isso, o autor grego é considerado por Sahlins como o “verdadeiro pai da História”.

           Segundo Sahlins, apoiado por grande filósofo e historiador David Hume, a obra de Tucídides tem dois grandes méritos:

1. O de ser secular, isto é, não religiosa, não fabulosa. “Ao eliminar o ‘fabuloso’, Tucídides pretendia livrar-se da intervenção divina como uma causa dos eventos históricos”[1] Ele “torna a história inteligível, como criação humana..”[2]

2. O de ser universal, ou seja, relata princípios que pertencem à toda natureza humana em todos os tempos. O caráter de perenidade é demandado por Tucídides na introdução de sua obra: “Meu trabalho não foi feito para agradar um público ocasional, mas para durar para sempre”[3]

           A natureza humana quer dizer o homem como ele é, no seu natural, sem instrução. Ou também o “tríplice libido” de Santo Agostinho: sexo, ganho e poder.

            Com relação às análises do Diálogo de Melos feita pelos autores clássico podemos apontar David Hume, a menção de Santo Agostinho e Hobbes.

1. David Hume: grande filósofo e historiador, nasceu e morreu em Edimburgo, Escócia (1711- 1776). Suas obras: “Tratado da Natureza Humana”,  “Investigação sobre Entendimento Humano” , “Investigação sobre os Princípios da Moral”,  “Ensaios Morais, Políticos e Literários”, entre outras.

a) Confirma o caráter histórico da obra de Tucídides: “A primeira página de Tucídides é, em minha opinião, o começo da verdadeira história. Todas as narrativas que a precederam estão de tal modo mescladas com fábulas que os filósofos devem abandoná-las, em grande medida, à observação dos poetas e oradores.” [4]

b) Confirma o caráter de perenidade da obra de Tucídides: “Em todas as nações e épocas, … as natureza humana permanece a mesma em seus princípios e operações. ….A humanidade é tão igualmente a mesma em todos os tempos e lugares que a história não nos conta nada de novo ou estranho sobre esse particular.”[5]

2. Santo Agostinho: bispo de Hipona, situada na atual Argélia, onde nasceu e morreu: 354-430. Converteu-se ao Cristianismo através das pregações de Santo Ambrósio em Milão (387), durante seus anos de estudante. Suas obras principais: “Confissões”, “Cidade de Deus”, “Solilóquios”, etc.

– “Tríplice libido”: parte das características da natureza humana mais primitiva: o apetite pelo sexo (negligenciado por Tucídides), ganho e poder. Esses são, os propulsores universais da ação histórica, juntamente com o medo, destacado por Tucídides em sua obra e retomado por Hobbes. Aliás, o medo é o grande propulsar na busca pelo poder e segurança.

3. Thomas Hobbes: 1588-1679, matemático, teórico político e filósofo inglês. Sua obra clássica é o “Leviatã”, onde elucida seus pontos sobre a natureza humana, sobre as necessidade de governo e a sociedade. Hobbes foi o primeiro tradutor da obra de Tucídides para o inglês.

– “Estado de natureza”: “a guerra de todos contra todos” em um sistema sem governo.

– No estado de natureza, alguns homens podem ser mais fortes ou inteligentes que outros, ou seja, somos diferentes por natureza.

– Ressalta que a natureza humana coopera por auto-interesse, especialmente motivada pela sobrevivência.

           Dialogando com os autores clássicos, Sahlins  pergunta-se “Como é possível, sendo a natureza humana a mesma em toda parte [universal] , que espartanos e atenienses reajam de modo tão diferente nas mesmas circunstâncias?”[6]

            O que vemos aqui é Sahlins discordando com a compreensão de natureza humana. De fato, ela não é um fato dado, anterior. Ela é cultural: é uma construção, o resultado de uma história ou de uma experiência histórica de uma determinada sociedade ou povo. Nesta visão, ninguém nasce guerreiro. O fato de os espartanos serem mais propensos à guerra foi o resultado de uma história, valores, motivações, comportamento aprendido e assimilado daquele povo. Não é à toa que os meninos espartanos já na idade de 10 anos eram retirados de suas famílias para serem treinados para a guerra. Não se trata de uma característica natural, mas um dado cultural. Da mesma maneira, os atenienses não são naturalmente uma potência marítima. Isto lhes custou investimento e motivação.

           Assim, diferentemente dos teóricos clássicos, o poder, ousadia, ou o medo não são características naturais, pois os atenienses eram mais ousados do que os espartanos ou os melos “não sabiam como ter medo para se preservar“[7], preferindo serem massacrados.

           Ao trazer à tona as diferenças e mesmo oposição nos vários aspectos da “natureza humana” entre Atenas e Esparta, Tucídides não sustenta e não leva adiante seu argumento de que exista uma “natureza humana” comum aos atenienses e espartanos. De fato, as sociedades de Atenas e de Esparta tinham uma organização social, política, motivações e jogos de interesses diferentes uma da outra. Nesse sentido Sahlins muito sabiamente aponta que “ausente do relato de Tucídides está todo conjunto mediador de instituições e valores envolvidos na construção da ação histórica: as relações complexas, tanto conjunturais quanto sistemáticas, que conferem autoridade a certas pessoas ou grupos que restringem o destino coletivo às suas disposições particulares” [8], tais como: clãs, tribos, relações maritais e de amizades, agremiações políticas, a economia, a religião, enfim a própria “Atenas do quinto século” fica de fora.[9]

           Sahlins ainda no alerta que Tucídides fazendo seu relato histórico sem etnografia, achando que seu ponto de vista particular (etnocentrismo) e sua descrição da natureza humana, de forma genérica, fossem suficientes para extrapolar e também falar dos espartanos a partir do seu “auto-interesse racional, muitas vezes confundido com a universalidade da primeira”[10], ou seja a natureza humana. Por outro lado, Sahlins, finalizando o capítulo, ressalta que é o próprio Tucídides quem nos vai tirar dessa confusão que ele nos envolveu. “Nossas apologias a Tucídides, então.”[11]

[1] SAHLINS, 2006, p. 115.

[2] Idem.

[3] TUCÍDIDES, 1876, 1.22.4.

[4] HUME, 1985, p. 422. Citado por SAHLINS, 2006, p. 114.

[5] HUME, 1975, p. 83, citado por Citado por SAHLINS, 2006, p. 114.

[6] SAHLINS, 2006, p. 117.

[7] Idem, p. 118.

[8] Idem, p. 119.

[9] Idem, p. 119.

[10] Idem, p. 120.

[11] Idem, p. 120.

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Sobre José Ricardo Martins

Professor de Geoplítica no curso de Relações Internacionais da UNICURITIBA. Pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais (NEPRI) da UFPR; Mestre em Sociologia (área de concentração em Relações Internacionais/Integração Regional) pela UFPR; especialista latino-americano em Políticas Públicas e Avaliação de Educação Superior pela UNILA/UFPR; especialista em Geopolítica e Relações Internacionais pela UTP; MBA com ênfase em Marketing Internacional pela UCL – Université Catholique de Louvain, Bélgica; especialista em Comércio Exterior com ênfase em negociação internacional pelo Institut Cooremans, Bruxelas, Bélgica; licenciado em Filosofia pela Faculdade Bagozzi. Interessado em trabalhar com (e lecionar): relações internacionais, cooperação internacional, integração regional, internacionalização de entidades de ensino, organismos públicos, municípios e entidades da federação, geopolítica, estratégia e defesa nacional, negociação internacional e resolução de conflitos.
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