POLÍTICA, PODER E MORAL NA OBRA “VINTES ANOS DE CRISE: 1919-1939 – Uma introdução ao estudo das relações internacionais” DE EDWARD HALLET CARR (1892-1982).

A obra de Carr:

Três razões justificam que “Vintes Anos de Crise” tornou-se uma obra clássica e de suma importância para os estudantes das Relações Internacionais:

¨      Contribuiu enormemente para colocar as RI como disciplina autônoma;

¨      É um dos textos fundadores do realismo clássico;

¨      Resgata uma época tida como de pouca importância para a história e as RI, mas que na verdade é o contrário: trata-se de um período muito turbulento e de grande relevância.

Capítulo VII: A NATUREZA DA POLÍTICA

      Carr define Política de uma maneira muito semelhante à definição de Aristóteles, como sendo “aquilo que lida com o comportamento dos homens em grupos permanentes ou semi-permanentes organizados.” (CARR, 2001, p. 127). Assim, concorda com o filósofo que “o homem é um animal político” e o analisa na sua complexidade: ora agindo egoisticamente, ora sendo sociável, cooperativo e com desejo de manter boas relações com os outros. Esse dualismo se reflete na sociedade e é o que faz ela também ser dualista. Citando o Professor Laski, Carr diz que “todo Estado é construído sobre a consciência dos homens” (LASKI, 1925, p. 55, citado por CARR, 2001, p. 128), mas toma a palavra do antropólogo Linton (The Study of Man, 1936, p. 240) para dizer que “a guerra parece ser principal força na criação do Estado.” (2001,p. 128). Assim, conclui que “o Estado é constituído a partir desses dois aspectos conflitantes da natureza humana” (2001, p. 128).

      Continuando sua tese, Carr diz que “não se pode divorciar política e poder (…) e o homo politucus que só visa ao poder é tão irreal quanto o homo economicus que só visa ao lucro. Deve basear a ação política numa coordenação de moral e poder.”(idem, 2001, p. 129). Para o autor, em política é fatal ignorar o poder quanto ignorar a moral: não se deve descuidar de nenhum deles. Aqui utópicos e realistas trilham caminhos antagônicos.

Capítulo VIII: O PODER NA POLÍTICA INTERNACIONAL

            Carr vê o poder como a força motriz na política internacional: “A Política é, em certo sentido, sempre a política de poder.” (2001, p. 135).  Para o autor, não se aplica sempre o termo “política” para as atividades do estado, mas apenas quando há conflito de poder. Assim, nem todas as relações entre Estados são políticas. A maior parte delas são “técnicas”. Mas quando envolve uma questão de poder entre um Estado e outro, logo torna-se um assunto “político”. Assim, Carr diz que ‘”é seguro dizer que o poder é sempre um elemento essencial da política”. (2001, p. 135)

            Prosseguindo, Carr diz que para entender um assunto político: não basta saber do que se trata, mas é necessário saber quem está envolvido.

            No pós-guerra (1a.Grande Guerra), autores utópicos chegaram a pensar que com a criação da Liga das Nações significaria a eliminação da força nas relações internacionais e as discussões eliminariam os exércitos e a marinha. Carr chama para a realidade dizendo que é uma ilusão pensar que houve no passado nações fracas e desarmadas detendo poder. Mesmo na Liga das Nações as decisões eram tomadas e o poder era exercido pelas grandes potências da época: Grã-Bretanha, Itália, França e Alemanha. (2001, p. 137). Isso acontecia em detrimento da suposta “igualdade jurídica” existente entre as nações.  As nações menores seguiam ou sofriam pressão para seguir as maiores. Isto aconteceu quando a Inglaterra (1931) e mais tarde a França (1936) deixaram o padrão ouro ou mesmo quando a Alemanha ultrapassou a França no poderio militar. Nesse momento, conforme narra Carr, muito países menores declararam neutralidade ou mesmo passaram para o lado da Alemanha.(2001, p. 138)

            O Tratado de Locarno é um exemplo da delicada política e equilíbrio de poder em um dado momento na Europa.

O autor divide o poder político em três segmentos: militar, econômico e ideológico, sendo todos interdependentes, segundo Carr, sendo o poder, na essência “um todo indivisÍvel”.

a) Poder Militar: o mais importante, pois a possibilidade da guerra sempre está presente. Carr menciona o grande estrategista prussiano da época de Bismarck, o Barão de Clausewitz, para quem “a guerra não é nada mais do que a continuação das relações políticas por outros meios”. (Clausewitz in Carr, 2001, p. 143). Aqui a Diplomacia é exercida pela coerção e pela força ( “A Diplomacia é a guerra em potencia”). (Hawtrey, p. 107). O poder militar tornou-se um fim em si, diz Carr. Luta-se guerras para se tornar mais forte militarmente ou para evitar que o outro se mais forte (idem, p. 146).

b) Poder Econômico: Carr argumenta que o econômico e a política sempre estiveram intimamente ligados na história: “a força econômica sempre foi um instrumento do poder político” (2001, p. 148). O progresso da humanidade vem através do desenvolvimento econômico, estando este conectado ou sendo instrumento do político.

            “Uma vez que riqueza era uma fonte de poder político, o Estado deveria procurar ativamente promover a aquisição de riqueza” (idem, p. 149). Na teoria mercantilista, os metais preciosos era a melhor forma de acumular riquezas, quando se pressupunha que era função do estado a tarefa de promover o acúmulo de riqueza. Este pensamento foi quebrado com a teoria liberal, onde se previa o Estado o menor possível, um mal necessário. (idem, p. 150).

            Na prática na há uma separação muito clara entre o econômico e o política na época de Carr (durante o pós-guerra), tanto que o termo “potencial de guerra” tornou-se uma outro nome para o poder econômico (idem, p. 152). Prosseguindo cita Bruck: “As leis fundamentais da história são leis políticas, as leis econômicas são secundárias”[1]

            De qualquer forma, para Carr não se pode separar o econômico do político, sobretudo na arena internacional: “Tentativas de resolver problemas internacionais através da aplicação de princípios econômicos divorciados da política estão fadadas à esterilidade” (idem, p. 154). E conclui sua argumentação típica realista: “O poder é indivisível e as armas militares e econômicas são, meramente, diferentes instrumentos do poder” (idem, p. 155).

            Car aprofunda o assunto do Poder Econômico através de vários sub-títulos, dos quais destacarei o que julgo o mais importante:

Poder Econômico Como Instrumento da Política

Carr julga ser este um dos instrumentos ou arma da política nacional para exercer influência de um país no exterior, especialmente através de dois meios:

¨      Exportação de capital: Já na época era uma prática comum ente os grandes países. A Inglaterra exercia sua supremacia política, durante todo o século dezenove, pelo fato de Londres ser o centro financeiro do mundo. O autor cita as fortes alianças criadas pela França, por exemplo, com a Rússia, Polônia e mesmo Áustria através de vultosos empréstimos ou de investimentos públicos ou privados franceses nesses países. Ou como a própria Inglaterra ampliava sua influência através do seu poderio econômico sendo acionista da Companhia do Canal de Suez, de ferrovias na Índia e China, companhias de petróleo, companhias de comércio, etc. Menciona ainda a “Diplomacia do Dólar”, onde os Estados Unidos criaram seu círculo de influência através de empréstimos e investimentos em sua área de influência, especialmente a América Latina (idem, p. 164).

¨      Luta pelo controle dos mercados estrangeiros: Mercados são buscados para fortalecer o poder político, sobretudo com apoio de instituições governamentais, como Fundo de Desenvolvimento Colonial e Departamento de Garantia aos Créditos para Exportação (ambas da Inglaterra). Carr ressalta que o comércio e a concessão de crédito para os vários países criava uma esfera de influência política.

c) O Poder Sobre a Opinião:

Esta é a terceira forma de poder. Tanto quanto o poder militar e econômico, o poder sobre a opinião não é menos essencial aos objetivos políticos. Assim, a propaganda sempre foi usada como arma de persuasão e considerada necessária.

Aqui Carr está falando da propaganda. Ele foi, é e será usado por todos os regimes. Stálin, Hitler e todos os ditadores serviram-se dela para dar credibilidade e justificar seus regimes.

Capítulo IX: A MORAL NA POLÍTICA INTERNACIONAL

            Carr abre o capítulo dizendo que este “o lugar da moral na política internacional é o problema mais obscuro e difícil de todo o campo dos estudos internacionais”( idem, p. 189). Isto se dá por duas razões:

a) As discussões sobre moral se dão a partir de três pontos de vistas diferentes, mas intimamente interligados:

      i.        O código moral dos filósofos

     ii.        O código moral do homem comum

    iii.        O comportamento moral do homem comum

Carr explica que “o comportamento do homem comum é influenciado pelo seu código moral, mas também seu código moral é influenciado pela forma pela qual os homens comuns se comportam” (idem, p. 189). Já as discussões sobre moral até então estavam muito em um nível do ideal e não sobre a realidade internacional. Havia um abismo entre essas duas instâncias. Porém, Carr deixa claro que o estudioso da política internacional não pode abrir mão do utopismo, mas deve ter os pés no chão também.

b) Não há acordo entre os estudiosos que moral querem discutir: é a moral dos estados ou a dos indivíduos. Carr discute se se pode amputar uma personificação do estado e serem tratados como indivíduos, na figura do governando. E ainda: “se podia presumir que os Estados tivessem deveres entre si em virtude da ficção que os considerava como pessoas” (idem, p. 192). E arremata: “A moral internacional, segundo este ponto de vista, deve ser a moral dos indivíduos” (idem, p. 192). O autor, de certa maneira, aceita a personificação do Estado – uma “natureza postulada”, uma ficção, mas algo necessário criado pela mente humana para lidar com a estrutura de uma sociedade desenvolvida.

            Carr rende-se ao fato que “a moral internacional é a moral dos estados” (idem, p. 194) e “as obrigações dos estados é que são o sujeito da moral internacional” (idem, p. 195). A partir dessa tese, Carr levanta duas objeções:

a) “A personificação do Estado encoraja a exaltação deste em detrimento do indivíduo” (idem, p. 195);

b) “Se a moral internacional é a moral de entidades fictícias, não seria ela própria fictícia e irreal?” (idem, p. 196). Não poderíamos afirmar que o comportamento moral não pode vir apenas de indivíduos?

            Mais adiante, Carr classifica as teorias sobre a moral internacional em duas vertentes:

a) as realistas que tem sua origem em Maquiavel, passando por Spinoza, Hobbes e Hegel, sustentam que “as relações entre Estados são governadas apenas pelo poder, e que a moral não influi nelas” (idem, p. 197);

b) as dos autores utópicos, em oposição, defendem que “o mesmo código de moral é aplicável tanto aos indivíduos quanto aos Estados” (idem, p. 197). Os defensores desta vertente aceitam a personificação do Estado e é mesmo defendida por líderes políticos e diversos autores. Alguns exemplos:

“A lei moral não foi apenas escrita para os homens em seu caráter individual, também foi escrita para nações” (Bright, 1858, p. 479, citado por Carr, 2001, p. 198).

“Estamos no começo de uma era em que requerer-se-á que os mesmos padrões de conduta e de responsabilidades por erros sejam observados entre as nações e seus governantes, assim como o são entre os cidadãos dos estados civilizados” (Woodrow Wilson, 1917, p. 479, citado por Carr, 2001, p. 198).

“A moral nacional é tão vital quanto a moral privada” (Roosevelt, 1937, p. 713, citado por Carr, 2001, p. 198).

            Enfim, todos concordam que existe um código moral que liga os estados entre si. Um desses códigos mais conhecidos da época de Carr era “a obrigação de não infligir morte ou sofrimento ‘desnecessários’ a outros seres humanos. (…) Esse é o fundamento da maioria das regras de guerra” (idem, p. 199). A grandes potências da época, de fato, estavam sinceramente preocupadas em agir dentro de padrões e códigos da guerra e da moral vigentes. Carr complementa: “A violação dos tratados, mesmo quando freqüentemente praticada, é tida como algo excepcional que requer uma justificativa especial. O sentimento geral de obrigação permanece” (idem, p. 201).

            Apesar do exposto acima que reflete basicamente a visão dos utópicos, Carr equilibra seu raciocínio com a posição realista, citando “razões por que não se espera, normalmente, que os Estados observem os mesmos padrões de moral dos indivíduos”(idem, p. 202):

      i.        O Estado não tem emoção (não se pode atribuir sentimentos de amor, ódio, inveja, etc, ao Estado) (idem, p. 202); “O impulso moral tem sua origem no indivíduo” (idem, p. 203);

     ii.        O homem comum não exige do Estado (pessoa coletiva) certos tipos de comportamento que normalmente são exigidos dos indivíduos (idem, p. 205);

    iii.        O Estado provoca um outro tipo de emoção junto aos indivíduos: “O bem do estado é mais usualmente visto como um fim moral em si mesmo (…) O estado, assim, passa a ser visto como possuindo um direito à auto-preservação que supera a obrigação moral” (idem, p. 206);

    iv.        “O Estado é repositório do poder político e não há autoridade acima do estado de lhe impor um comportamento” (idem, p. 207);

     v.        A moral de uma pessoa coletiva (o Estado) só pode ser a moral social, ou seja, implica em deveres para com os membros que essa sociedade representa – os cidadãos (idem, p. 208). “Nenhum indivíduo pode criar uma consciência para si mesmo, ele sempre precisa de uma sociedade para criá-la por ele” (T.H. Green, p. 351, citado por Carr, 2001, p. 208).

Outros itens abordados por Carr no final deste capítulo são:

¨      Existe uma comunidade internacional? A resposta é que “jamais pode ser real” (idem, p. 208).

¨      Princípio da Igualdade: “não é aplicado e, realmente, não é nada fácil de ser aplicado no caso da comunidade mundial” (idem, p. 208);

¨      O bem do todo e o bem da parte: “o princípio de que o bem do todo tem precedência sobre o bem da parte, que é o postulado de qualquer comunidade totalmente integrada, não é geralmente aceito” (idem p. 208).
[1] Moeller van der Bruck, Germany’s Third Empire, p. 50 in Carr, 2001, p. 152. Carr ressalta que esta é um lugar-comum de autores fascistas e nazistas.

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Sobre José Ricardo Martins

Professor de Geoplítica no curso de Relações Internacionais da UNICURITIBA. Pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais (NEPRI) da UFPR; Mestre em Sociologia (área de concentração em Relações Internacionais/Integração Regional) pela UFPR; especialista latino-americano em Políticas Públicas e Avaliação de Educação Superior pela UNILA/UFPR; especialista em Geopolítica e Relações Internacionais pela UTP; MBA com ênfase em Marketing Internacional pela UCL – Université Catholique de Louvain, Bélgica; especialista em Comércio Exterior com ênfase em negociação internacional pelo Institut Cooremans, Bruxelas, Bélgica; licenciado em Filosofia pela Faculdade Bagozzi. Interessado em trabalhar com (e lecionar): relações internacionais, cooperação internacional, integração regional, internacionalização de entidades de ensino, organismos públicos, municípios e entidades da federação, geopolítica, estratégia e defesa nacional, negociação internacional e resolução de conflitos.
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